democracia e dívida

Acorda, e não subas ao cadafalso! (um relato de uma companheira que esteve no 4º Encontro Internacional da ICA N, em Londres, este fim de semana)

In Noticias on 31/03/2014 at 11:21 pm

Acorda, e não subas ao cadafalso!

Portugal está com a corda ao pescoço? Porque quer! Porque gosta! Existem países europeus que funcionam e não têm troikas, nem austeridade? Porque querem! Porque gostam de viver a vida deles, de criar riqueza e de decidir o seu futuro. Podemos fazer o mesmo? Podemos! Esta foi a resposta que retirámos da reunião da rede euro-mediterrânica de auditorias cidadãs (Jubillee Debt Campaign/ICAN), que decorreu, este fim de semana, em Londres.

Autodeterminação e suspensão do pagamento da dívida são as palavras chave! São a solução. Sabem porque razão? Porque os companheiros alemães, presentes no encontro da ICAN, fizeram já saber que vários bancos, por lá, estão insolventes. E quem vai pagar a fatura dessas insolvências? Os alemães têm fama de serem um povo muito organizado, de terem um país descentralizado, com uma poderosa rede regional e local. É natural e provável que facilmente se organizem, lutem e resolvam o problema.

Onde costuma então atacar a rede neoliberal para ajudar os ‘coitados’ dos bancos? Nas zonas frágeis, desorganizadas, nas periferias como Portugal. E porque razão a rede neoliberal ataca, por exemplo, Portugal? Porque nós deixamos e gostamos. Porque optamos por ter um país centralizado em Lisboa e Porto. Porque nunca quisemos criar redes locais sustentáveis, nem hábitos de entreajuda. Resultado, é a lei da vida! Abrimos o flanco; deixamos o país a descoberto; o inimigo instala-se, no governo, na administração, e invade com facilidade.

Perante tamanho caos, começar por onde? Em primeiro lugar, percebermos que é tudo uma questão de autodeterminação, que diz respeito a todos nós. É tudo uma questão de iniciativa cidadã, de criação de redes e de grupos locais ou micro-grupos. E sabem porquê? Porque a organização cidadã é por si mesma um eficaz ato de fiscalização e de controlo da administração, além de ser uma fonte geradora de informação, de educação, de atividade, de projetos, de soluções de vida, de riqueza e de qualidade de vida, que é o que mais interessa.

E em relação aos bancos, que os alemães dizem insolventes, o que fazemos? Suspendemos já o pagamento da dívida, fiscalizamos, através da criação de auditorias cidadãs e observatórios locais, anulamos a parte ilegítima e pagamos apenas a parte legítima da dívida. É que, como dizia, durante a reunião do Jubilee/ICAN, em Londres, o antigo arcebispo da Cantuária, a dívida tem sido uma forma de os ricos obterem lucro através da miséria e da pobreza. São lucros conseguidos à custa das necessidades básicas das pessoas.

E é escusado falar em ‘restruturação’ da dívida porque o termo tem conotação política. Significa ir negociar com os credores, os tais que não olham a meios para obterem lucros. É dar um sinal de fraqueza e de falta de autonomia. É sinal de que o flanco continua aberto e que eles, devoradores, podem continuar a comer o bocado que ainda nos resta. Eles, que nos destroem o presente e o futuro, que não nos permitem satisfazer as necessidades básicas, convidamo-los a decidirem connosco as nossas vidas!? É isso que continuamos a querer para nós!? Estamos dispostos a suportar mais insolvências que não nos dizem respeito? Ou queremos construir a nossa vida com qualidade de acordo com os nossos desejos e sonhos?

De que estamos à espera para tomarmos conta das nossas vidas? De que estamos à espera para suspender o pagamento da dívida? De que estamos à espera para auditar a dívida? De que estamos à espera para não pagarmos dívidas ilegítimas criadas por bancos e engenharias financeiras que geram ad eternum dívida não produtiva, como explicava, em Londres, Costa Lapavitsas, professor no SOAS. Segundo Lapavitsas, a dívida dos países resgatados pela troika não é pagável e, continuando sem resistência, crescerá ad infinitum. E, de facto, o que nos foi possível observar e constatar, durante estes três dias de reunião em Londres, como afirmamos no início, é que apenas os países que se mobilizam e organizam conseguem, com custo, muito custo, ir resistindo e lutando contra as políticas neoliberais. A saída é estreita, mas existe e é possível alarga-la sem condescendências, através da mobilização, da interajuda, de formas democráticas válidas e transparentes. Afinal de contas, os inimigos estão em desespero, prestes a cair no precipício. As suas receitas fracassaram. Contudo, não nos iludamos. Eles contam connosco para suportarmos os prejuízos. Essas receitas continuarão em espiral, se não nos organizarmos, pressionarmos e anularmos a dívida ilegítima. Apenas assim evitaremos sermos esmagados pelo incomensurável fardo de uma dívida que, como disse Lapavitsas, não nos vai deixar crescer.

É que, como sugere Foucault, um homem só tem muito poder e move montanhas.

Maria da Liberdade

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